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Reação psicológica ao regresso à escola no contexto da Pandemia do Covid-19






Micael Pinto, psicólogo da Escola Secundária Dr. Joaquim Gomes Ferreira Alves, Valadares, Vila Nova de Gaia

Maio é o mês de algum alívio nas medidas de restrição na sequência da Pandemia do Covid 19 em Portugal e os alunos do 11º e 12º anos voltam às escolas. Nos hospitais, os profissionais de saúde estão na primeira linha desse combate. Nas escolas, desde o início da pandemia que os professores estão também na linha da frente. Entre longos períodos de trabalho, escassas horas de descanso, vários fatores de stress, e em pouco tempo, adaptados a novas formas de ensino à distância, também um processo de aprendizagem, a produzir novos conteúdos e a motivar os alunos. Desde o início que os professores lutam diariamente direta e indiretamente na saúde dos Portugueses. Sem prescrição ou receitas, a manterem rotinas, a estabilizarem horários, em momentos síncronos a gerarem interação com os alunos e com as suas famílias. Numa mensagem publicada na página do Sapo a 22 de abril de 2020 sobre o ensino à distância, a expressão “O power são os professores, o point a tecnologia” não poderia ser mais feliz. Parabéns a todos os nossos professores! Sem possuírem as tradicionais virtudes atribuídas aos dos heróis, protagonistas não inerentemente maus, diferentes da infame perceção generalizada associada a nobres objetivos menos compreendidos. Na inseparável responsabilidade das suas funções ligados de modo íntimo a mensagens como: Vamos todos ficar bem! Vamos todos dar o nosso melhor! Ligados de modo necessário a uma responsabilidade social e cooperativa de ensino, uma prática voluntária não exclusiva de ações compulsórias impostas pelo governo ou qualquer outro incentivo externo, os professores continuam a servir de modelo de posturas e comportamentos que promovem o bem-estar de todos numa lógica de promoção de desenvolvimento sustentável e crescimento responsável e inspiração. Muito pode, igualmente, ser associado ao próximo desafio que se segue. Ensino à distância é uma coisa, ensino presencial e, simultaneamente à distância, é outra coisa. E, nesse caso, a procura de respostas a algumas questões são fundamentais.como reação do aluno ao contexto que vivemos, existem problemas que decorrem de um impacto psicológico das condições a que estão submetidos. Os docentes que desenvolvem também sob o impacto das mesmas condições as suas funções profissionais, também uma população.

Que impactos esperar e procedimentos a ter no regresso à escola num contexto pandémico sobre a qual ainda pouco se sabe?


A Pandemia do Covid-19 ainda não terminou, as escolas não vão voltar ao normal, as práticas não devem ser as mesmas. Nas últimas semanas, os diretores das escolas fizeram todos os esforços, de forma continuada, para passar uma mensagem de tranquilidade, positiva, de segurança e confiança para a comunidade, com sucesso. Devemos valorizar os professores e acabar com a ideia da abordagem centrada na mera transmissão de aquisição de aprendizagens, conteúdos e matérias. Apesar das condições que vivemos atualmente, os docentes, um grupo que, devido às funções que desempenham, representam um importante e conhecido papel na linha da frente como mediadores da gestão emocional dos alunos e das suas famílias. A evolução da medicina e a educação andaram sempre de mãos dadas. Tendo em conta a nova realidade, lado a lado. Os cuidados com a saúde mental estão na lista das preocupações da escola e dos professores.

No retorno à escola, que alunos/adolescentes vamos encontrar?


Uma coisa é certa, no retorno à escola, os alunos e as suas famílias mudaram. Vivemos mudanças nas situações de vida, no dia a dia, de economia, de emprego, de trabalho, de residência, de estrutura e de funcionamento familiar. As crianças e os jovens e as suas famílias precisam de ajuda para gerir as suas emoções, a sua saúde mental, a sua confiança, os seus modelos de comunicação e de relações humanas e sociais. No retorno à escola muitos alunos vivem com o receio de serem infetados e de infetar os outros, colegas ou familiares, o que promove maior ansiedade. Além disso, o afastamento social e isolamento retiraram um suporte eficaz ao stress. Não nos podemos esquecer que estas características promovem um conjunto de condições sintomatológicas depressivas “quase normal”. Todas essas situações poderão, em determinado momento, tornarem-se potencialmente desequilibradas, mesmo para os alunos que não tenham tais registos, mais acentuado para alunos com maiores fragilidades. Poderemos observar situações polarizadas entre o extremo de variáveis positivas e negativas desadequados. Ora um otimismo e um humor excessivo ora um desânimo e um humor depressivo. Ora uma falsa perceção de invulnerabilidade à situação de risco, ora a crença persistente e recorrente de ser infetado ou vir a infetar os outros. Não devemos viver aterrorizados pelo Covid-19, devemos iniciar nas escolas a promoção de melhores práticas na responsabilidade de cada um e de todos e entre si, relativos aos cuidados de saúde.

O tempo de afastamento provocou alterações nos alunos?


Esta condição, pelo seu período prolongado, pode ter colocado o bem-estar e a saúde dos alunos em risco. Muitos aspetos clínicos são manifestados um, dois ou três meses depois de toda a situação inicial da pandemia ter ocorrido. O presidente da Comissão de Ética da Ordem dos Psicólogos Portugueses, Professor Doutor Miguel Ricou, diz que ao longo do período de confinamento, o Governo criou vários serviços para garantir resposta psicológica, no entanto, outros serviços ficaram para trás, sendo por isso, necessário reforçar a resposta ao nível dos serviços psicológicos, até porque haverá um maior número de perturbações emocionais. Ou seja, durante muito tempo tivemos que lidar com situações emergentes e agora é que vamos, de alguma forma, analisar. Outro problema inerente a esta situação é que esta pandemia poderá ter também impactos psicológicos incertos a longo prazo.

Como podem os professores tirar proveito desta situação para mobilizar os alunos para o trabalho e para as aprendizagens?


Esta é uma oportunidade para alterar a forma como os professores mobilizam o trabalho e as aprendizagens. Podemos pensar em ir mais além, e continuarmos a fazer o uso da tecnologia, mesmo em sala de aula, como complemento aos conteúdos presenciais. Devemos tirar proveito de todo o conhecimento que os professores e que os alunos adquiriram de uma forma muito rápida, para proveito, no presente e no futuro, da promoção de uma economia de tempo e de papel. Uma das situações específicas, que terá de ser vista na prática é a questão do papel. Não se trata apenas de uma economia de custo ou de esfoço, ou de uma questão ecológica ou ambiental, trata-se de um potencial veículo de propagação do vírus. Não se trata apenas de inovação, trata-se de cumprir com um conjunto de regras que devem ser aplicadas, hoje! Uma outra oportunidade é a da gestão de tempos, em aula. Neste novo modelo de ensino, os professores podem trabalhar outras competências com os alunos, como a promoção da autonomia na realização de trabalhos individuais e em grupo. É também uma excelente oportunidade para conduzir dentro das salas de aulas inovação tecnológica nas aprendizagens de natureza teórico-prática através de materiais assíncronos e de uma maior inclusão de alunos através de materiais síncronos. Estamos a fazer uma programação de aulas, de horários e de preparação de exames, paulatinamente, numa necessidade de recuperar atividades que durante este tempo ficaram para trás, em permanente adaptação à evolução da pandemia, num esforço em responder a ambas as necessidades, a educação e a saúde.

Que práticas de gestão de tempos, em aula, serão aconselháveis aos professores?


Além das principais responsabilidades de ensino e de promoção de medidas de carácter pedagógico que estimulem o desenvolvimento da educação, os docentes, são responsáveis por inúmeros procedimentos necessários a adotar para que se possa trabalhar em segurança, em ambiente de ordem e disciplina nas atividades na sala de aula e na escola. Esta realidade obriga os docentes a estarem constantemente a aprender e a atualizar-se enquanto estão no terreno, exploram novas estratégias para lidar com variáveis psicológicas associadas aos alunos, mas simultaneamente, com recorrentes relatos pessoais de desgaste físico e emocionalmente. É expectável que, pela experiência e pelo conhecimento especializado que têm, os docentes consigam lidar melhor com os desafios mesmo ao nível do impacto psicológico que esta situação tem. Porém, aconselha-se aos docentes que a prática da gestão de tempos, em aulas, seja desenvolvida a um ritmo lento a moderado e equilibrado. Por um lado, protegem-se da exposição a elevadas adaptações durante muito tempo, que poderá fazer com que ultrapassem os seus limites pessoais e deixem de conseguir gerir o seu estado emocional, o que traz consequências ao nível da saúde física e mental podendo levar a uma perceção de deixar de ter capacidades para fazer face aos desafios: burnout ou esgotamento. Por outro lado, permite aos docentes proteger os alunos do excesso de ansiedade e de stress na adaptação a um novo ritmo depois de viverem todos os dias ao seu próprio ritmo de trabalho e aprendizagem. Um ritmo mais lento e equilibrado permite dar espaço à construção de melhor coesão grupal, de relações mais empáticas, onde podem ser discutidos assuntos que envolvam não só a componente cognitiva associada às aprendizagens, mas a componente afetiva e reguladora de emoções associado às mudanças de paradigma que vivem que devem ser partilhados e melhor compreendidos que promovam o estabelecimento de uma relação empática.

Corremos o risco de ter adolescentes que vão procurar, desafiar a autoridade quebrando regras, designadamente de proteção do próprio ou de outros.


As especiais exigências de prevenção impostas pela pandemia impõem um elevado e permanente esforço dos docentes na adequação e descoberta de um novo perfil de desempenho profissional, nomeadamente no cumprimento dos planos educativos e, simultaneamente, na responsabilidade disciplinar para com os alunos, pais e encarregados de educação num período de transição, após o período de confinamento. Este período traz muitas consequências positivas, contudo, corremos o risco de ter adolescentes que vão procurar, desafiar a autoridade quebrar regras, designadamente de proteção do próprio ou de outros, podendo gerar situações de grande conflito.

Como poderá um(a) professor(a) prevenir esse comportamento?


Independentemente do comportamento que resulte de especial risco, também mais expostos a reações emocionais podem prevenir e resolver problemas comportamentais ou de aprendizagem pela adoção de medidas conducentes à melhoria das condições de aprendizagem e à promoção de um bom ambiente educativo, que contribuam de uma forma flexível para capacidade de integração, adaptação e participação nas atividades, nas suas competências didáticas, pedagógicas e científicas e, que contribuam de uma forma rigorosa para as medidas de proteção e de segurança impostas pela pandemia e para o sucesso dos alunos e do sistema educativo.

Os professores poderão prevenir comportamentos de risco através de algumas estratégias bem conhecidas, nomeadamente, através da escuta ativa, desenvolvimento de relações empáticas, feedback positivo, etc. através do conhecimento que têm de si na sua relação com os alunos pela construção de novas pontes de comunicação, de posições de flexibilidade, em analisar com crítica aquilo com que concordam e ouvir o mais possível o que não concorda. Acreditamos que um forte investimento na relação professor aluno, aluno professor pode contribuir para o sucesso no processo ensino aprendizagem no atual contexto de pandemia do Covid-19.

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